O que dizem as ruas


Arnaldo Niskier - 2013-08-15

  Para uma análise mais concreta das  manifestações de hoje em dia, observamos uma série de cartazes exibidos nas ruas, para medir as reivindicações populares.  Uma delas já foi resolvida, que é a derrubada estrondosa da PEC 37, revertendo a jato uma expectativa que era exatamente a oposta do que aconteceu.  Ninguém vai mais mexer nas atuais tarefas do Ministério Público.  Ponto para os jovens.
 
Outro item que mereceu resposta rápida foi o que se refere aos recursos para a educação.  O governo chegou a propor que o setor  ficasse com 100% dos royalties do petróleo. A Câmara dos Deputados foi mais prudente e estabeleceu uma divisão razoável: 75% para educação e 25% para saúde, um setor igualmente carente de atenção.
 
Mas o que chamou mais atenção, na nossa pesquisa, auxiliada por netas que participaram das passeatas, foi praticamente a inexistência de cartolinas ou faixas abordando a temática da Constituinte ou do referendum popular para a reforma política.  Os jovens, basicamente apartidários, não deram valor a esses temas, valorizados pela presidente Dilma, e que soam mais como biombos para esconder o tamanho da  crise vivida, especialmente com o recrudescimento do dragão da inflação.  Não era, positivamente, a prioridade das ruas.
 
Vejamos alguns exemplos bem elucidativos: “Ei, soldado, estou lutando também por você.”  Outro:  “Copa no Brasil custa mais caro do que as três últimas edições somadas.”  Aliás, a condenação  do que foi pago para a construção das arenas esportivas para a Copa das Confederações foi feroz.  Além disso, os jovens questionaram a transformação dos estádios de Natal, Brasília e Fortaleza em futuros “elefantes brancos”.  O argumento parece lógico: “Se os times da Capital estão na terceira divisão, quando é que o Mané Garrincha vai pegar um grande público?”.  Daí o cartaz: “Da Copa eu abro mão! Quero dinheiro pra Saúde e  Educação!”  Ainda bem que fomos campeões, na bela final contra a Espanha...
 
No “Correio Braziliense”, temos  a manchete “A nova cara do Brasil”, citando a mobilização pelas redes sociais, sem lideranças ostensivas ou pleitos unificados.  Isso em nada menos de 12 capitais.  Uma jovem colocou bem alto o seu cartaz: “Desculpem o transtorno.  Estamos mudando o Brasil.”  Logo ao lado, “A aula hoje é na rua.”
 
Outra mocinha exibia orgulhosamente: “País desenvolvido é onde rico usa transporte público.”  Em outro momento: “Tem tanta coisa errada que nem cabe num cartaz!”  Com uma foto bem esclarecedora,  era mostrada “A escola aos pedaços”, o que se repetiu inúmeras vezes em várias cidades brasileiras.  A reclamação do mau estado de conservação dos estabelecimentos de ensino tornou-se  um consenso.  Outro lembrava a vitória do Brasil sobre o   Japão, na Copa das Confederações: “Brasil 3x0 Japão.  Mas o Japão nos ganha em   Saúde, Transporte e Educação.”
 
“Verás que um filho teu não foge à luta... Acorda Brasil”  foi uma cena que se repetiu muito, ao longo do movimento, que teve manifestações curiosas, como a daquela  moça bonita que escreveu “Odeio passeata, mas estou aqui por um dever cívico”.  Outro apelou para a religião: “Ore pelo Brasil!” Certamente um pedido endereçado ao simpático Papa Francisco.  O país está assombrado.  É preciso ouvir a poderosa voz da  juventude.

Outras crônicas: