Crônicas

Geografia da fome
Arnaldo Niskier

É estranho que o Brasil, com a sua grandeza, não tenha até hoje conquistado um Prêmio Nobel. Se podemos utilizar uma expressão futebolística, “mas bateu na trave”. Numa das ocasiões foi com o nome de Josué de Castro, médico e cientista pernambucano, autor do clássico “Geografia da Fome”, que foi presidente do Conselho da FAO (Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas), de 1952 a 1956, com sede em Genebra(Suíça). Estive lá para visitá-lo.

O seu nome foi proposto ao Prêmio Nobel da Paz, mas não teve o apoio do governo brasileiro, o que costuma ser fundamental para o êxito da iniciativa. O seu livro principal tinha sido traduzido em 25 idiomas. A cassação dos seus direitos políticos, em 1964, quando tinha 56 anos de idade, foi decisiva no julgamento da premiação.

Tive o privilégio de ser seu amigo (e da sua família). Lembro dos inúmeros encontros no apartamento de Copacabana, em Paris e em Genebra, com a presença de duas figuras essenciais na sua vida: D. Glauce, a esposa querida, e a filha Ana Maria, então professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na época casada com o meu amigo Célio Lyra.

Desejavam que Josué falasse em subnutrição, mas ele sempre insistiu na palavra fome, muito mais forte. Com essa convicção escreveu também o livro “Geopolítica da Fome”. Proibido de visitar o seu país, lecionou Geografia Humana, na Universidade de Paris, até sua morte, em 1973.

O tema do seu grande livro é a história da descoberta da fome, nos seus anos de infância nos alagados da cidade do Recife, “onde convivi com os afogados desse mar de miséria.” Ficou sempre com a impressão de que os habitantes dos mangues – homens e caranguejos nascidos à beira do rio – à medida que iam crescendo cada vez se atolavam mais na lama.

Mais adiante, o cientista afirmou não ter dúvida de que vivemos num mundo faminto: “São deficiências ou carências sistemáticas dos princípios alimentares essenciais ao equilíbrio vital do organismo humano.”

A fome tem efeito desagregador. Josué de Castro gostava de citar o ex-presidente americano Truman: “A fome não tem nacionalidade: a abundância tampouco deve tê-la.” Pensamento exageradamente avançado? Defendeu as suas ideias com grande e apaixonado ardor.

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