Índios devem aprender Português
Arnaldo Niskier - 2012-12-07
Em recente palestra na Expo CIEE 2012, realizada no Centro de Convenções Sul América, no Rio, foi possível anotar uma série de questões levantadas pela plateia, constituída predominantemente de jovens estagiários e aprendizes. É um retrato quase fiel das dúvidas relativas à língua portuguesa.
Vamos recordar algumas delas, com as respostas dadas pelos especialistas. Houve até muita graça nos questionamentos, como a seguinte pergunta: “Quando se escrevia elefante com ph o bicho era maior?” Nem o animal africano era maior, nem as farmácias (também com ph) eram diferentes das que existem hoje.
Outra questão: “Todos os livros didáticos utilizados agora serão substituídos por outros em respeito aos postulados do Acordo Ortográfico?” Na verdade, as editoras brasileiras já fizeram essa adaptação, que será obrigatória a partir de 1º de janeiro de 2013. Em Portugal, no entanto, há uma grande discussão a respeito do assunto, com resistências ao emprego do Acordo.
Uma estagiária deixou nítido o seu interesse profissional: “Os concursos oficiais estão adotando o Acordo Ortográfico?” A resposta é afirmativa. Quem não estiver com as novas regras em dia, vai sofrer na hora de fazer a prova. Sobre isso, chamei a atenção da plateia para o uso indiscriminado do internetês por parte dos nosso jovens. Isso acostuma a uma simplificação que, na hora da escrita, é condenada pelos professores. Todo cuidado é pouco.
Uma pergunta referia-se à importância do Acordo Ortográfico para a economia do país. Indiretamente, sim. O MEC está distribuindo 100 milhões de livros didáticos, comprados a editoras privadas, para oferta gratuita a escolas de alunos carentes. Poderá se tornar uma operação economicamente ainda mais rentável se as editoras brasileiras ampliarem a sua ação para todos os países da comunidade lusófona – e aí alcançarão o imenso mercado africano. É exatamente esse o ponto em que há críticas em Portugal, temendo o avanço. Mas também não se pode pensar no contrário, como, aliás, está acontecendo hoje em dia? A Editora Leya, por exemplo, cuja matriz é portuguesa, ganha cada vez mais espaço entre nós.
Outra questão foi bem interessante: “Com a inclusão do “y” e do “w” no alfabeto, sob o critério da obstrução do ar, poderemos classificá-los como vogais ou consoantes?” É claro que são consoantes.
Algumas papeletas recebidas não continham perguntas de conteúdo, mas queriam saber os nomes de dicionários e vocabulários aconselhados aos usuários. O único oficial é o Vocabulário Ortográfico de Unificação da Língua Portuguesa (VOLP), produzido pela Academia Brasileira de Letras, e que se encontra na quinta edição, totalmente atualizado.
Um estagiário demonstrou preocupação inusitada: “Deve-se ensinar português aos silvícolas? Isso não é uma violência?” O Brasil já teve cinco milhões de índios, hoje eles são apenas 600 mil. Não vemos constrangimento no fato de eles conservarem os seus muitos dialetos e aprenderem a língua comum, que é o português.