O médico do cérebro


Arnaldo Niskier

Quem pensa que a Academia Brasileira de Letras só elege escritores para os seus quadros está redondamente equivocado. Copiando o que faz a tradicional Academia francesa, alterna escritores com figuras notáveis da cultura. E assim acaba de dar posse a um médico ilustre, o Dr. Paulo Niemeyer Filho, que se manifestou claramente em defesa da ciência.
 
Antes de analisar mais detidamente as qualidades do novo acadêmico, convém recordar que a ABL, desde Oswaldo Cruz, contou com uma série relevante de médicos, como Miguel Couto, Deolindo Couto, Carlos Chagas Filho, Guimarães Rosa e o sempre lembrado Ivo Pitanguy, que alcançou renome internacional. Pode ser ainda citado o escritor gaúcho Moacyr Scliar.
 
Paulo Niemeyer era filho do grande neurocirurgião que tinha o mesmo nome e sobrinho de Oscar Niemeyer, o genial construtor de Brasília, na Era JK. Carioca, graduou-se em 1975 pela faculdade de Medicina da UFRJ e tinha o doutorado na área de Neurocirurgia pela Unesp. Com esses títulos, foi eleito membro titular da Academia Nacional de Medicina. Hoje, dirige o Instituto Estadual do Cérebro, por ele criado no Rio de Janeiro. Escreveu um livro que logo se tornou bestseller: “Nos labirintos do cérebro”. Adquiriu renome internacional.
 
Na sua concorrida posse, Paulo Niemeyer Filho declarou-se francamente favorável às pesquisas científicas, às vacinas e às artes. Pareceu que queria dar uma resposta à altura para os absurdos cometidos pelo atual presidente da República, que não compareceu à posse, nem mandou representante.
 
Fazendo remissão à Covid-19, lembrou as centenas de vítimas ocorridas no Brasil, entre as quais o seu antecessor na cadeira nº 12: o escritor e crítico literário Alfredo Bosi (1936-2021). Mostrou os cuidados na prevenção e depois estabeleceu as conexões entre medicina e literatura: “As ciências exatas e as humanas são atividades culturais paralelas, mas igualmente importantes no desenvolvimento da civilização.”
 
O novo acadêmico aproveitou a oportunidade para discordar do fato de somente os literatos ganharem prestígio na sociedade brasileira: “Não sou favorável a esse desequilíbrio.”